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Paixão por Lisboa

Espaço dedicado a memórias desta cidade

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Palácio de Alcântara

"Palacio de Alcantara. - Saindo as portas de Alcantara, a caminho de Belem, encontra-se logo á direita um edificio de tão modesta apparencia, que um estrangeiro que por ahi passe, não presume estar vendo um palacio, e menos ainda uma antiga habitação real.
Este edificio, pois, decorado com tão pomposo titulo, não se recommenda por elegancia, nem por grandeza, nem por especie alguma de ornato architectonico, nem finalmente por a mais ligeira feição que caracterise a epocha da sua fundação. Dá-lhe, porém, direito a ser mencionado n'este roteiro, o interesse historico de um acontecimento que n'elle se passou, o qual foi o preludio de mui importantes successos da história de Portugal.
O palacio de Alcantara, modernamente chamado do Calvario, por estar situado em frente do convento e largo do mesmo nome, era outr'ora propriedade particular. Posto que nos escasseiem as noticias ácerca d'esse primeiro periodo da sua história, cremos com algum fundamento que veio para a coroa por sequestro no governo intruso dos Filippes de Castella...Foi na terminação d'esta regencia (rainha D. Luiza de Gusmão, viuva del rei D. João IV, na menoridade de seu filho D. Affonso VI), que o palacio de Alcantara adquiriu celebridade.
É geralmente sabido, que D. Affonso VI tirou violentamente as redeas do governo das mãos de sua mãe; mas o que nem todos sabem é que aquelle soberano tinha completado a sua maioridade, e que a regente, por conselho de ministros, e mais ainda por sugestão dos jesuítas, que temiam, não o moço rei, porém o conde de Castello-Melhor, seu valido, não só não estava resolvida a entregar o poder a D. Affonso VI, mas até meditava, e trabalhava com ella grande parte da corte, e todas as influencias jesuísticas, n'uma conspiração concertada para a deposição d'aquelle monarcha, sob pretexto de incapacidade para reinar,e para a exaltação ao throno de seu irmão, o infante D.Pedro.
Foi transformado este trama, nas vesperas do dia em que devia realisar-se, pelo Conde de Castello-Melhor, que persuadiu el-rei a apoderar-se repentinamente do governo do estado.
Combinado o plano contra-revolucionario por aquelle homem...saiu d. Affonso VI dos paços da Ribeira, onde residia coma familia real, no dia 21 de junho de 1662, e dirigiu-se para o palacio de Alcantara, sem que se percebesse o seu designio.
Apenas alli chegou, estando acompanhado do conde de Castello-Melhor, fez expedir cartas a toda a nobreza, tribunaes, prelados, etc., convocando-os alli para lhe assistirem no acto de tomar posse do governo do reino.
Não se realisou este acto no palacio de Alcantara, porque desconcertados os planos dos ministros da regente, por aquella imprevista e energica resolução d'el-rei, veio a rainha D. Luiza a um acordo, em virtudedo qual entregou os sêllos do estado a seu filho, D. Affonso VI, no dia 23 do mesmo mez, celebrando-se a ceremonia nos paços da Ribeira com a solemnidade usada em taes casos...No dia 2 de abril de 1668 celebrou-se na capella do palacio de Alcantara o consorcio do principe d.Pedro, então regente pela deposição de D.Affonso VI, seu irmão, com a rainha D. Maria Francisca Isabel de Saboya, que tendo casado no anno antecedente com este desditoso monarcha, se achava então desprendida dos primeiros laços conjigaes por sentença dos tribunaes do reino, e por bulla pontificia.
O palacio de Alcantara foi a casa de campo predilecta de D. Pedro, em quanto regente e depois de rei. N'elle residiu por varias vezes, até que indo alli convalescer de grave doença, ahi falleceu em 9 de dezembro de 1706.
Coincidencia bem notavel! D Affonso VI entrou no poder por este palacio, no qual seu irmão D. Pedro, que lhe roubara a liberdade, apossando-se-lhe do throno e da esposa, veio por fim, já duas vezes viuvo, deixar o poder e a vida!
Em 1693 serviu por algum tempo de residencia á rainha de Inglaterra, viuva, D. Gatharina de Bragança.
O terremoto de 1755 arruinou muito este palacio. Depois foi reedificado, e mais tarde dado a Francisco José Dias, com o fim e condição expressa de estabelecer n'elle uma fabrica de chitas. Como não fosse cumprida esta clausula, voltou para a coroa aquella propriedade no anno de 1808.
Reinando a sra. D. Maria II, de saudosa memoria, fizeram-se n'este palacio consideraveis obras de reedificação e augmento, mas sem se attender a especie alguma de beleza de architectura. Desde então tem servido de aposento, por munificencia regia, a algumas fidalgas vivas, e a varios servidores da casa real.
A quinta consta de um jardim, para onde deita uma frente do palacio anterior ao terremoto de 1755, de pomares, e de um horta ajardinada com um grande tanque, etc. De certos sitios d'esta quinta goza-se uma linda perspectiva da cidade, do Tejo, e das povoações e montanhas da margem d'além."
in Archivo pittoresco : semanario illustrado

purl 3366.jpg

Planta da real quinta do Calvário, Lisboa, 1847, in http://purl.pt/3366

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